Carta Aberta à comunidade do Indi,
Ouvi uma educadora no rádio dizendo que deveríamos 'aproveitar' a tragédia
de Realengo (e se desculpou pelo uso deste verbo) para aprofundar a reflexão e
discussão de questões incômodas pela sua complexidade, uma delas o bullying nas
escolas.
O artigo do psicanalista e escritor Sergio Telles, no Estado de São Paulo de sábado,
no link abaixo, do qual destaco um pequeno trecho, ecoa a minha percepção sobre
o assunto, que o bullying é só uma modalidade de manifestação de intolerância e
falta de entendimento/percepção do sentimento do outro.
"Mas afinal, o que é o bullying? É o nome novo para uma antiga realidade - o
mecanismo de psicologia grupal que acontece nas escolas no qual uma criança é
escolhida como saco de pancadas pelo grupo, que nela projeta tudo que não
tolera em si mesmo. Habitualmente isso ocorre com as crianças mais frágeis, que
não conseguem se defender, sofrendo passivamente as maiores agressões.
Ao se observar com mais atenção, logo entendemos que o bullying não acontece
apenas entre as crianças. Existe em todos os grupos humanos e em todas as
faixas etárias, sendo responsável pela formação dos "bodes expiatórios",
pessoas usadas pelos grupos para nelas descarregarem seus sentimentos
negativos. Mais ainda, é a base de todo e qualquer preconceito contra pessoas e
minorias, e não seria exagero dizer que sua manifestação social macroscópica
mais radical é a guerra. Estamos falando da destrutividade e das múltiplas
formas pelas quais ela se manifesta nos atos humanos."
Sérgio Telles, Estado de São Paulo, 16/04/2011
http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20110416/not_imp706941,0.php
Ao mesmo tempo, imagino que, muitas vezes, os próprios 'bulliers', causadores do sofrimento
psicológico na vítima, não têm nem noção ou intenção de fazerem o que estão
fazendo, já que o sentimento de humilhação está no outro.
Explicitar e discutir essas coisas, não só à luz triste desta tragédia, mas continuamente, é obrigação de todos nós, que
vivemos em comunidade. Vejo, principalmente, a família e a escola como espaços
privilegiados e essenciais para falar sobre tolerância, convivência com as diferenças. A família e
a escola são as células da comunidade e delas precisam vir mudanças culturais,
influenciar e serem influenciadas pela comunidade, na minha visão (leiga) de mãe e
cidadã.
Tendo essa situação como pano de fundo, trago aqui algumas questões para a escola e comunidade, ao mesmo tempo que cobrando uma postura menos 'silenciosa', me colocando a disposição para discussão construtiva:
1) Como está a discussão do bullying (reconhecimento e tratamento de situações)
no corpo docente e funcionários do Indi? Qual a visão da escola sobre o
problema? Me recordo que há um tempo atrás, houve uma chamada para palestra sobre o
tema na escola (na qual não estive presente). Qual foi o aprendizado para a
escola com a palestra?
2) Como esta questão específica está sendo discutida com os alunos? Tive notícia
que no dia seguinte à tragédia de Realengo, os professores, em cada aula, abordaram o
assunto, mas não sei qual foi essa abordagem, nem se foram orientados pela coordenação ou foram manifestações espontâneas. Tive a impressão, pelos comentários da minha filha, que a mensagem perdeu a efetividade, tantas vezes que foi repetida. É a melhor estratégia? No portal
do Indi não há nenhuma menção sobre este tipo de discussão ou outras do gênero.
3) Que fóruns estamos utilizando, como comunidade (pais, alunos, professores, coordenadores,
funcionários), para discutir questões importantes, valores, conceitos,
diferenças? O quanto de energia nossa é colocada em rotina e o quanto de tempo e
energia são dispendidos em reflexão, visão de futuro, como educar as crianças de uma geração que vai criar o próprio mundo para viver?
4) Sobre essa questão de bullying, especificamente, há uma discussão do Indi com outras
escolas para troca de experiências e perspectivas de enfrentamento de desafios?
Daniela Lopes
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